O estrangeiro em Freud e Benjamin

CURSO MINISTRADO POR: Alessandra Affortunati Martins Parente

VAGAS: 25

CARGA HORÁRIA: 8h

DIAS DO CURSO: de 14 a 17/03/2017 (Terça, Quarta, Quinta e Sexta-Feira) - Das 20h às 22h

 

O objetivo do curso é apresentar a atualidade da ideia de estrangeiro considerada como categoria formal da cultura a partir da articulação de Sigmund Freud com Walter Benjamin

Nº de pessoas:

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R$ 450,00

Núcleo

Altos Estudos

Ementa do Curso

O objetivo do curso é apresentar a categoria de estrangeiro como forma da cultura. No território psicanalítico, tal categoria foi introduzida por Freud em “O homem Moisés e a religião monoteísta” de 1934-8. Considerando que Moisés, figura fundadora da religião judaica, não seria judeu, mas egípcio, Freud mostra, em plena ascensão nazifascista na Europa, como aquilo que é estrangeiro está nas bases de uma nova configuração da cultura. Veremos os aspectos históricos que alimentam a ousada tese freudiana e mostraremos como ela subverte tanto os ideais nazifascistas de pureza da raça e de nacionalismo, como os ideais sionistas pautados na identidade judaica. A articulação de Freud com Benjamin visará aprofundar o caráter estrangeiro inerente à linguagem e o lugar em que este se situa – o limiar. Diferente da noção de fronteira, simples divisória entre dois territórios distintos, Benjamin amplia e concede densidade a um lugar de passagem. Analisaremos como desse suposto “não-lugar” nascem outras formas estéticas e éticas. No curso, as análises dos textos de Benjamin sobre fascismo e modernidade também serão capazes de elucidar a vivacidade do debate acerca do estrangeiro para a reflexão sobre a política contemporânea de democracias neoliberais, pautada em aspectos identitários dos sujeitos e na normatividade cultural.

AULA 1. Como a categoria de estrangeiro pode ser definida?

 

Trata-se aqui de mostrar como esta categoria aparece na obra de Freud como uma nova forma de compor a cultura. Tal categoria está presente de maneira clara no texto “O homem Moisés e a religião monoteísta” de 1934-38. Neste período, ocorre a ascensão do nazi-fascismo na Europa e a categoria de estrangeiro é a antítese da categoria de fascismo. No primeiro encontro todos esses aspectos históricos são explicados em conexão com a distinção dos dois modelos de pensar a cultura: o fascista que se dá de forma identitária (nacionalismo, raça pura, eliminação do diferente etc.) e o estrangeiro (forma mestiça, línguas sobrepostas, imbricação entre diferenças).

AULA 2. Limiar como lugar do estrangeiro

 

No segundo encontro, a ideia é mostrar o lugar do estrangeiro. A fronteira é apenas uma linha divisória entre os diferentes territórios. Se expandida, ela ganha densidade, podendo se tornar uma morada: o lugar do estrangeiro. Veremos, então, a distinção feita por Walter Benjamin entre as noções de fronteira e limiar, e o estrangeiro como aquele que sempre está num lugar de passagem. Tal lugar é um lugar de errância e exílio que permite desnaturalizar hábitos e conceitos fixados numa determinada cultura.

AULA 3. A palavra estrangeira

 

Como a linguagem é demarcada neste território impreciso? O texto de Benjamin “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem” se articulará aqui com o nome de Moisés analisado por Freud em “O homem Moises e a religião monoteísta”. A ideia, neste encontro, é mostrar que o estrangeiro expande e alastra os limites do familiar, indicando como a linguagem e a cultura próprias de territórios e sujeitos podem chegar a lugares imprevisíveis na mescla com aquilo que é impróprio (estrangeiro). Um exemplo emblemático foi dado por Judith Butler que, discutindo os argumentos da Alemanha para obter o espólio de Kafka (tcheco de origem), pautados no domínio do autor sobre a língua alemã, lembra como Felícia, sua namorada, sempre o repreendia pela precariedade de seu alemão. Ou seja, foi sua faceta estranha que expandiu os limites daquilo que era propriamente alemão.

AULA 4. O estrangeiro e sua dimensão política

 

A categoria de estrangeiro implica, então, na imbricação do sujeito com os objetos. É saindo de seu si-mesmo e embarcando no caráter opaco dos objetos que os sujeitos estariam mais afeitos ao modelo aqui proposto: o do estrangeiro. Resgatando a crítica marxista ao fetiche da mercadoria, que coloca tudo no interior da lógica do consumo e iguala todos os objetos, mostraremos que a materialidade inerente a cada coisa é que deve dar as diretrizes para os aspectos formais da cultura. A psicanálise pode ajudar a realizar este procedimento na medida em que opera de forma arqueológica, resgatando justamente o modo como as coisas se transformaram em palavras, ou seja, o momento em que a multiplicidade material recebeu um nome. Com Benjamin, a cultura também opera desta forma – ou seja, retirando a faceta fetichista das coisas e explicitando e recuperando a materialidade inerente aos objetos.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Benjamin, W. ______. (1921) O capitalismo como religião. Op. Cit.

______. (1930) E. T. A. Hoffmann e Oskar Panizza. In: O capitalismo como religião. São Paulo: Boitempo, 2013.

______. (1930a) Teorias do fascismo alemão. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

______. (1930b) Teorias do fascismo alemão. In: Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1994.

______. (1933) Experiência e pobreza. Op. cit.

______. (1936) O narrador. Op. cit.

______. (1940) Sobre o conceito de história. In: LÖWY, W. Walter Benjamin: aviso de incêndio. São Paulo: Boitempo, 2005.

______. Passagens. Belo Horizonte: UFMG & Imprensa Oficial, 2006.

Derrida, J. Mal de arquivo: uma impressão freudiana, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

Fédida, P. O sítio do estrangeiro. São Paulo: Escuta, 1996.

Freud, S. (1895) Projeto de uma psicologia. In: GABBI Jr. O. F. Notas a projeto de uma psicologia. Rio de Janeiro: Imago, 2003.

______. (1913) Totem e tabu. In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

______. (1915) Artigos sobre metapsicologia. Op. cit.

______. (1917) Luto e melancolia. Op. cit.

______. (1919) O inquietante. Op. cit.

______. (1920) Além do princípio do prazer. Op. cit.

______. (1927) Fetichismo. Op. cit.

______. (1930) Mal-estar na civilização. Op. cit.

______. (1936) Um distúrbio de memória na Acrópole. Op. cit.

______. (1937a) Construções em análise. Op. cit.

______. (1934-8) O homem Moisés e a religião monoteísta. Op. cit.

Kristeva, J. Estrangeiros para nós mesmos, Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

Lacan, J. (1959-60) A ética da psicanálise. In: O Seminário, livro 7, Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

Said, E. Freud e os não-europeus, São Paulo: Boitempo, 2004.

Yerushalmi, Y. H. O Moisés de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

Ministrado por

Alessandra Affortunati Martins Parente

Psicanalista e pesquisadora de pós-doutorado pelo departamento de filosofia da FFLCH-USP (bolsa FAPESP). É psicóloga (PUC-SP), bacharel em filosofia (FFLCH-USP), doutora em Psicologia Social (IP-USP) com estágio no Zentrum für Literatur und Kulturforchung (ZfL). Autora do livro “Sublimação e Unheimliche” (Casa do Psicólogo, 2016 – no prelo).

Aulas

AULA 1
Data:
 14/03/2017
Horário: das 20h às 22h

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AULA 2
Data: 15/03/2017
Horário: das 20h às 22h

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AULA 3
Data: 16/03/2017
Horário: das 20h às 22h

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AULA 4
Data: 17/03/2017
Horário: das 20h às 22h