Descolonizando o gênero e a sexualidade

CURSO MINISTRADO POR: Susana de Castro

VAGAS: 69

CARGA HORÁRIA: 6h

DIAS DO CURSO: 08, 15 e 29/09/2021 - 19h

 

Abordaremos aqui, por um lado, o racismo, sexismo e colonialismo nas relações Norte-Norte a partir das obras das mestizas queer de cor, María Lugones e Glória Anzaldúa. Por outro lado, abordaremos o colonialismo, racismo e sexismo nas relações Sul – Sul a partir da obra da feminista Rita Segato.

 

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R$ 250,00

Ementa do Curso

Dentro do contexto geopolítico, somos todos/es/as, brasileiras, brasileires e brasileiros de todas as raças, gêneros, orientações sexuais e credos, subalternos, porque originários de uma região considerada ‘atrasada’, seja do ponto de vista econômico, social ou cultural em comparação às potências capitalistas do Norte Global. Evidente que a consideração de se ser ou não ‘atrasado’ está atrelada a uma mentalidade colonial que perdura até os nossos dias e que apaga a história colonial, a escravidão, os epistemicídios e os genocídios que foram perpetrados em nome do ‘progresso’ e da ‘civilização’. A dependência do Sul Global é essencial para a manutenção da ‘superioridade’ do Norte. A dependência é não só econômica, mas principalmente intelectual. Nas academias de Abya Ayala são reproduzidos vocabulários emancipatórios exógenos como se pudessem servir para explicar a situação social e política local marcada por uma colonialidade. Por outro lado, internamente, enquanto cidadãos e cidadãs, nossos marcadores sociais e culturais são diferenciados de acordo com raça, cor, credo religioso, orientação sexual, etnia, gênero, e, por isso, nossas posições sociais de dominação e/ou de subalternidade são variadas. Participamos de redes interpessoais diferenciadas de subalternidade e dominação a depender do lugar que ocupemos em relação a outra pessoa com a qual nos relacionamos em determinada ocasião.

No caso do vocabulário da luta pelos direitos sexuais e reprodutivos, utilizamos uma literatura branco-centrada norte americana como se fosse a única, a que melhor pudesse descrever universalmente a problemática comum de produção de exclusão do patriarcado, capitalista heterocentrado. Sequer procuramos por literatura de pessoas não brancas do Norte. O mercado editorial é, certamente, também um espaço de produção capitalista que defende os interesses nacionais de um mercado dominado por pessoas brancas, de modo que mesmo dentro dos países do norte a literatura acadêmica mais divulgada é a branco-centrada.

Temos, assim, dois níveis de colonialismo na contemporaneidade. Um colonialismo dentro do próprio Norte Global, no qual a produção intelectual de pessoas queer de cor ou mulheres feministas não brancas recebe menos visibilidade. Por outro lado, temos também um colonialismo interno ao próprio Sul Global, quando os atores principais das universidades privilegiam a produção estrangeira em detrimento da local, acreditando na superioridade da primeira.

Abordaremos aqui, por um lado, o racismo, sexismo e colonialismo nas relações Norte-Norte a partir das obras das mestizas queer de cor, María Lugones e Glória Anzaldúa. Por outro lado, abordaremos o colonialismo, racismo e sexismo nas relações Sul – Sul a partir da obra da feminista Rita Segato.

1º  Encontro: María Lugones: pureza, impureza e separação

“Se as mulheres, os pobres, os de cor, os queer, aqueles com culturas (cujas culturas são negadas e tornadas invisíveis por serem vistas como nossa marca) são considerados impróprios para o público, é porque estamos contaminados pela necessidade, emoção, o corpo. Essa contaminação é relativa ao desejo do sujeito moderno de controle por meio da unidade e da produção e manutenção de si mesmo como unificado.” (María Lugones, 1994, p.467)

Tópicos:

  • mestiçagem e impureza
  • pureza, unidade, separação
  • modernidade e controle

Referências bibliográficas:

LUGONES, María. “Purity, Impurity, and Separation”. In: Signs. Vol. 19, n. 2, Inverno, 1994. Pp. 458-479.

——————- & PRICE, Joshua. ‘ Dominant Culture; El Deseo por um Alma Pobre (the desire for na Impoverished Soul). In: Harris, Dean A. (org.) Non-dominant Voices, on Difference and Diversity. Westport, Connecticut, Londres: Bergin & Garvey, 1995.

——————. Carnal Disruption. Mariana Ortega Interviews María Lugones. In:  Speaking Face to Face. SUNY Series, Praxis: Theory in Action. Nova Iorque: State University of New York Press. Edição do Kindle.

HOAGLAND, Sarah Lucia. “Walking Illegitimately, a Cachapera/Tortillera and a dyke”. In DiPietro, Pedro et alli. Speaking face to face – The Visionary Philosophy of María Lugones. Nova Iorque: State University Press, 2019. Edição do Kindle.

2º Encontro: Gloria Anzaldúa, a nova mestiça

“Como eu disse antes, eu pretendia que Borderlands não apenas espalhasse, mas também produzisse conhecimento. Todo o tempo que estive na escola, os produtores de conhecimento eram pessoas brancas de classe média e alta – aqueles com poder nas universidades, instituições científicas e publicações e arte casas. Eles produzem as teorias e os livros que lemos. Eles produzem os valores inconscientes, pontos de vista e suposições sobre a realidade, sobre a cultura, sobretudo. Nós internalizamos, assimilamos essas teorias.” (Gloria Anzaldúa, 2009, p. 188)

Tópicos:

  • Auto história e produção de conhecimento
  • Queer de cor latina, chicana
  • Consciência mestiça e a nova mestiça
  • Espiritualidade
  • Fronteiras / fronteira
  • El mundo Zurdo

Referências bibliográficas:

ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La frontera – The New Mestiza. 4th Edition. São Francisco: aunt lute books, 2012.

———————————————–. Trad. Carmen Valle. Madri: Capitán Swing Libros, 1999.

———————–. The Gloria Anzaldúa Reader. Edited by Ana Louise Keating. Durham, Londres: Duke University Press, 2009.

———————–. Light in the Dark – Luz en Lo Oscuro. Rewriting Identity, Spirituality, Reality. Durham, Londres: Duke University Press, 2015.

————————-“El Mundo Zurdo”. In: Anzaldúa, G. & Moraga, C. This Bridge Called May Back. Writings by Radical Women of Color. 4th Edition (Kindle edition)

3º Encontro: Rita Segato, o cuir diaspórico

“La familia mítica de los orixás combina elementos típicos de la familia patriarcal característica de la classe dominante brasileña com concepciones claramente no patriarcales.” (Rita Segato, 2010, p. 185)

Tópicos:

  • Xangô de Recife
  • Colonialidade
  • Esfera privada e esfera pública na modernidade
  • O privado é político

Referências bibliográficas:

SEGATO, Rita. “Aníbal Quijano y la perspectiva de la colonialidade del poder ». In: La crítica de la colonialidad em ocho ensayos Y uma antropología por demanda. In: Buenos Aires, Prometeo libros, 2015/1.

—————. “El Edipo Negro: colonialidad, forclusión de gênero y raza”. In: La crítica de la colonialidad em ocho ensayos Y uma antropología por demanda. In: Buenos Aires, Prometeo, 2015.

——————. “La invención de la naturaliza: família, sexo y género em la tradición religiosa afrobrasileña”. In: Las estruturals elementales de la violência. Ensayos sobre género entre la antropologia, el psicanálisis y los derechos humanos. Buenos Aires: Prometeo libros, 2010.

BUARQUE de Hollanda, Heloisa (org.). Pensamento feminista hoje, sexualidades no sul global. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.

 

 

 

Ministrado por

Susana de Castro

Doutora em Filosofia pela Universidade de Munique e professora associada do Departamento de Filosofia e do programa em pós-graduação em Filosofia da UFRJ.

Aulas

AULA 1
Data: 08/09/2021
Horário: das 19h às 21h

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AULA 2
Data: 15/09/2021
Horário: das 19h às 21h

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AULA 3
Data: 29/09/2021
Horário: das 19h às 21h